Dados da organização Transparência Internacional e projeções da Federação das Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp) revelam que o Brasil responde por 26% de todo o dinheiro movimentado pela corrupção no mundo. Esse índice pode alcançar até 43%, na pior hipótese. Enquanto as perdas médias globais anuais com o problema giraram perto dos R$ 160 bilhões nos últimos seis anos, o prejuízo nacional pode chegar a R$ 70 bilhões por ano — ou 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Essa informação não é para gerar ainda mais revolta, na verdade, eu gostaria de estimular a mobilização. Não gritar e não se mexer contra esse mal é revoltante.
De acordo com um levantamento divulgado Frente Parlamentar de Combate à Corrupção, atualmente existem mais de 160 propostas de senadores e deputados sobre o tema. [A Frente foi criada em abril deste ano e conta com a adesão de 205 deputados e 11 senadores.] Algumas proposições esperam há mais de uma década para entrar na pauta de votação, 21 projetos são estão prontos para plenário. O levantamento aponta que dos projetos na fila de espera, 25 impõem maior rigor no combate à corrupção, estabelecendo penas maiores para os condenados, ampliando prazos de prescrição e tornando inafiançáveis os crimes dessa natureza. Nessa fila, também estão 24 propostas que estabelecem maior transparência nos gastos públicos. Há ainda outras 11 proposições que alteram a forma de escolha dos integrantes dos tribunais de contas e nove que impõem maior rigor na liberação de dinheiro público. “Ao lutar contra a corrupção, alguns parlamentares e eu no meu mandato não fazemos nada mais do que nossa obrigação. Deveria ser prerrogativa de qualquer bom parlamentar combater corruptos e corruptores. Devia ser uma das funções mais elementares de um parlamentar”, analisou o deputado federal Chico Alencar, um dos integrantes da Frente Parlamentar Mista de Combate à Corrupção.
* Uma das propostas é o projeto de lei 204/2011, do senador Pedro Taques. O PL já foi tema de um post aqui no blog e também de uma enquete que bateu recorde de votações no site do Congresso.
Mas esses projetos não são e não serão prioridade no Legislativo. Infelizmente, ainda temos muitas pessoas lá dentro que não gostariam de vê-los aprovados. “Dava pra fazer um pacote, em prol da moralização da atividade política. Mas não interessa a muitos parlamentares impor limites a si mesmos e a seus esquemas junto a Executivos, fundados no clientelismo e no patrimonialismo. A única esperança é que a mobilização popular cresça a tal ponto que force o Congresso a colocar essas propostas para serem discutidas, melhoradas e posteriormente aprovadas”, avaliou Alencar.
A nova onda de manifestações que tomou conta das redes sociais é essencial para promover mudanças. Pressionar o poder público, assim como a imprensa faz com a presidente Dilma Rousseff na queda de seus ministros, é uma forma de chamar atenção para esse problema tão sério no Brasil. E sei também que muita gente acha que não adianta. Mas sabemos que se houver continuidade nesses movimentos, é possível mudar algo sim. O deputado Chico Alencar reconhece a importância dessas manifestações, mas defende uma gama mais ampla de reinvindicações. “A corrupção, nos níveis brasileiros, também é consequência de um sistema político ultrapassado, carente de atualização”, argumenta ele.
* Mas nem tudo é conspiração da mídia, como gostava de dizer o ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva… Uma das coisas mais tristes é ver que “virou rotina” cair ministro no governo brasileiro. Deveríamos nos orgulhar que pela primeira vez essas coisas estão acontecendo? Ou deveríamos nos envergonhar que essas coisas ainda acontecem? Pois é, o jogo político as vezes é desestimulante. “Se você observar, a maioria dos ministros que caiu foi herdada do governo Lula. Diz-se que a presidente Dilma não tinha esses nomes como os de sua preferência, mas os aceitou por pressão do ex-presidente, e para alocar todos os setores da ampla aliança que fez. Pesquisas dos nomes escolhidos eles fazem sim – até porque frequentemente têm informações que nós não temos, da ABIN e da Polícia Federal. Mas, para acomodar aliados, fazem vista grossa a muita coisa, e termina acontecendo o que aconteceu. Mesmo antes das denúncias, já se sabia, nos bastidores, que ministérios como o de Turismo e de Transportes tinham práticas questionáveis, com aparentes ‘esquemões’. Algumas práticas da política, devido à histórica impunidade aos de cima, foram sendo naturalizadas”, explica o parlamentar.
Nota do editor: Mudar essa cultura política é não fechar os olhos dizendo: ahh, todos fazem e sempre vão fazer. Cobre, exija, proteste e faça a diferença. Acho que não existe exemplo maior de cidadania do que esse. Não sou uma otimista utópica. Sabemos que certas coisas sempre vão existir, mas não necessariamente nesse montante. Não adianta se revoltar contra o status quo da política brasileira em casa dando forward em emails contra a corrupção. E lembrando que a corrupção acontece em todos os níveis da sociedade. Desde um dinheirinho para se livrar da blitz até votar errado. Eu gosto de dizer que não estou dando lição de moral em ninguém, mas é bom lembrar que cada um pode fazer um pouco.
“É extremamente importante separar o joio do trigo. As pessoas precisam se dar conta de que os bons parlamentares existem. E também há partidos comprometidos, de fato, com o interesse público. Podem até estar, momentaneamente, em terrível minoria, mas eles existem. É comum o discurso de que “nenhum político presta” e de que ‘os partidos são todos ruins’. Isso é bastante negativo, porque a democracia é uma conquista histórica. Abandonar a política só serve para ajudar mais a banda podre. É como se o sujeito, indignado por ter sido assaltado, decide não registrar a ocorrência e sim entregar ainda mais dinheiro ao ladrão”, Chico Alencar.



