(RE)construindo a Política, sem ser chatão

Por conta do recesso parlamentar, colocarei nas próximas semanas alguns personagens diferentes aqui. Mas sempre ligados à política de alguma forma. Hoje, eu tenho o ENORME prazer de publicar uma entrevista com André Dutra. Formado em Relações Internacionais e pós-graduando em Gestão Pública, esse menino de 25 anos já tem muita história para contar. Ele costuma dizer que ingressou na política ainda criança, nos ombros da mãe, durante o movimento dos Caras-Pintadas, na época do impeachment do então presidente Fernando Collor. Desse dia em diante, André foi o protagonista de muitos capítulos na história do nosso País. Em 2009, ele foi um dos iniciadores do Movimento Fora Sarney, que nasceu através do Twitter. Com a rápida divulgação das redes sociais, o jovem ajudou a mobilizar pessoas de diferentes regiões, que protestaram nas ruas durante a I Marcha Fora Sarney, realizada em 16 cidades brasileiras.

André participando do evento Politeia

Como todo jovem revolucionário que se preze, André bate de frente com muitas pessoas por não concordar com o jeito que as coisas acontecem hoje na política brasileira. Por isso, em 2010, ele decidiu se candidatar a deputado distrital. Tendo que “competir” com peixes graúdos, ele teve pouco espaço. Mas fez tudo o que podia. “Não tive ajuda financeira, nem tempo de televisão, o que seria básico. Fiz meu próprio material, carreguei caixas de panfleto, tive ajuda de alguns amigos e, basicamente, panfletei em bares, festas, faculdades e usei a internet”, conta André. Não se elegeu e também não desistiu. “Hoje, ninguém me representa na política como acho que deveria ser representado. Defendi na minha candidatura e defendo a bandeira de que a Política é para todos. Mais pessoas boas tinham que se candidatar nas próximas eleições, pois só o ato de se candidatar já é uma vitória, tirando o lugar de alguém que seria ruim, de más intenções”, emenda.
Ao falar de André é difícil – ou quase impossível – não cair no clichê do exemplo de  superação. Felizmente, eu nem pretendo fugir desse clichê. De fato, André é um exemplo.  Como poucos jovens são hoje em dia. Mais do que um exemplo, ele é a representação do otimismo que esse blog busca. “A realidade brasileira me estimula, pois não quero ver o Brasil sempre como uma “eterna promessa”. Por meio da Política é que teremos a verdadeira revolução, a possibilidade de sermos uma potência do conhecimento, além de nossos recursos naturais (que dependem de nossos cérebros para não serem destruídos). A certeza de que vivemos em um país maravilhoso, com péssimos líderes e meu amor por esse país, é também um grande estímulo a não esmorecer”, afirma André, que desde 2007 mantém um site (www.andredutra.com)  , em que divide sua opinião sobre vários assuntos e também pauta novos debates sobre temas que acha importantes ou estratégicos ao Distrito Federal, Brasil e ao mundo.
Na minha opinião, o mais legal do André, é que ele nem sabe o quão legal ele realmente é. Pessoas assim me fazem acreditar ainda mais. Me motivam, me estimulam. Quando perguntado se seria novamente candidato, ele respondeu, sem hesitar, que sim. “Eu fui e quero ser mais vezes o candidato que quer fazer parte da mudança que eu acredito. Não sou a solução completa para tudo, mas eu sou parte da solução que eu acredito.”

Leia a entrevista na íntegra:

1. Fale um pouco da sua trajetória política. Com que idade ingressou, movimentos que já participou e projetos atuais nesse campo.
Formei-me no Centro de Ensino da Asa Norte, o CEAN, uma escola pública aqui de Brasília, que teve grande importância em minha formação política e crítica. Desde lá, me envolvo com movimento estudantil e manifestações. Mesmo antes, no Ensino Fundamental, costumava me candidatar a “representante de sala”, situação que, coincidentemente, foi acontecendo na escola, se repetindo na faculdade e até hoje na pós-graduação. Então posso dizer que, de certa forma, desde que entrei na escola tenho algum tipo de atuação política ou mesmo antes, nos ombros de minha mãe no Movimento dos Caras-Pintadas, à época do impeachment de Collor. Um evento em particular me fez apaixonar pela política: a campanha em 1998, quando o então Governador Cristovam Buarque acabou perdendo para o candidato Joaquim Roriz. Foi uma decepção enorme e eu estava em frente ao diretório do PT (antigo partido de Cristovam), onde estavam fazendo a contagem dos votos. A frustração foi geral e aquilo me marcou. Dois anos depois, aos 14 anos, eu estava no 1º ano do Ensino Médio quando Cristovam Buarque palestrou na UnB para alunos do CEAN, desde então sempre tive opinião política.
Aos 22, em 2008, me filiei ao PDT, partido do Senador Cristovam Buarque e do (agora) Deputado Federal Reguffe, também influenciado pela história de Brizola, Jefferson Peres, Darcy Ribeiro… Já em 2009, fui um dos que iniciou o Movimento Fora Sarney. O movimento já fez alguns atos de repercussão (como a entrega de pizzas no Senado e os estudantes vestidos com blusas que diziam FORA ARNEY, pois o “S” foi pego pela segurança do Senado). Nessa mesma época, eu e mais 10 colegas fomos presos no Senado. Dali foi realizada uma Audiência Pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado, para falar das transgressões da Polícia do Senado, do direito de ir e vir e Direitos Humanos, em geral.
Atualmente continuo a investir em minha formação pessoal, profissional e acadêmica, pois no dia em que eu for eleito, quero estar muito bem preparado. Mas tenho um carinho especial por dar aulas voluntárias de política, ética, cidadania, noções de Direito, Economia, Relações Internacionais, entre outros assuntos, na minha ex-escola, o CEAN! A ideia é que outros ex-alunos voltem à escola e ofereçam um serviço. Já tenho mais dois amigos que querem dar aulas pré-vestibular de Matemática, uma que deve oferecer terapia em grupo e outro que deve dar uma oficina de basquete. No mais, vislumbro 2014 como uma chance maior de colocar em prática meus projetos e sonhos.

2. Você se candidatou para deputado em 2010. Como foi essa experiência? 
Foi o candidato mais jovem do PDT. Essa experiência revirou minha vida de cabeça para baixo, mas foi uma das mais incríveis que já tive! Foi super difícil, também, por não ter apoio nenhum do Partido, (à época) presidido por um sujeito que, além de Presidente Regional, era também candidato a Dep. Distrital (uma anomalia, absurdo) e que fez sua campanha em detrimento do todo. Assim, não tive ajuda financeira, nem tempo de televisão, o que seria básico. Fiz meu próprio material, carreguei caixas de panfleto, tive ajuda de alguns amigos e, basicamente, panfletei em bares, festas, faculdades e usei a internet. Emagreci 4kg em três meses, conheci muitas pessoas legais, vi muitas irregularidades, senti o peso da desigualdade que as atuais regras eleitorais submetem pessoas novas, participei de debates com figuras conhecidas e mais experientes e não me incomodei em confrontá-los, estive ao lado do Senador Cristovam em alguns momentos e aprendi muito. Enfim, foi uma das maiores oportunidades de aprendizado em que me envolvi e seria ótimo se mais jovens quisessem seguir este caminho, que é duro e difícil, mas que é um caminho que proporciona mecanismos de melhorar efetivamente a sociedade.

3. Pretende se candidar de novo em 2014?
Com certeza. Dei meu primeiro passo, o que creio que  tenha sido mais difícil. Tive uma votação relativamente boa, considerando todos os fatores envolvidos nessa campanha e nas circunstâncias. Tenho pessoas que acreditam em mim e creio que serei um bom representante pro DF. Não tenho porque abandonar esse sonho, só não serei candidato se meu partido não me der legenda.

4. E como você vê a política hoje? Há espaço para otimismo?
A política hoje está a mesma coisa de “ontem” e “anteontem”. Não há renovação de ideias, há uma falsa noção de renovação de caras. Não há novas práticas, atitudes, há continuidade da velha política e nem sempre com nova roupagem. Há raríssimas exceções, o que me alivia ver que são levadas em consideração aqui em seu blog. Seu blog é um sinal de que a política de hoje tem salvação, pois há certas pessoas que vislumbram a política de amanhã! Otimismo é acreditar e arregaçar as mangas para subverter os atuais valores difundidos sobre política. É fazer o que você faz, por exemplo, ao focar na política “do bem”, que eu chamo de Política com P maiúsculo.

5. Como você acredita que podemos mudar a imagem dos políticos perante a população tão desacreditada?
Mudando os políticos que estão no poder. Simples. Pela educação, pelo voto consciente, pela cobrança aos eleitos, sendo você eleitor ou não dessa pessoa. Exigindo que seus direitos sejam cumpridos, mas respeitando e praticando rigorosamente seus deveres. Ser cidadão é também multiplicar e dividir a cidadania.

6. Todos os políticos dizem que vão ser diferentes, mas a maioria acaba sendo igual após eleito. Qual é o seu diferencial?
Minhas propostas e minhas atitudes. Minha principal preocupação comigo mesmo é que eu siga sempre minha coerência, meus princípios, honre meus amigos, minha família e a expectativa que as pessoas têm sobre mim. Ao contrário de muitos políticos, tenho uma consciência muito viva, muito aparente, não conseguiria viver em paz se eu fizesse tudo aquilo que eu sempre falei contra. Eu acredito na moralização, acredito que ainda existe Política, que, mesmo dentro de toda lama, ainda tem algo limpo e que valha a pena ser defendido com unhas e dentes, até a morte. Eu fui e quero ser mais vezes o candidato que quer fazer parte da mudança que eu acredito. Não sou a solução completa para tudo, mas eu sou parte da solução que eu acredito. Parte da revolução da educação que eu quero ver no Brasil e parte da política, ética e moral que o DF precisa, mais do que nunca e que, um dia, espero conseguir levar para o Brasil inteiro. Meu diferencial é que tenho uma ideologia, diferente do personagem da música que quer uma pra viver. Eu tenho um ideal e a certeza de que esse ideal é possível, não é uma quimera, um sonho inatingível. E esse sonho não é só meu não é individualista, não é um projeto de poder pelo poder.

7. As pessoas reclamam muito da política hoje em dia. Mas você acha que elas buscam fazer alguma coisa para mudar essa situação? E os jovens?
Infelizmente, o Brasil tem sido visto como um país de acomodados. É algo realmente complexo. Enquanto vemos hoje nas ruas do Chile milhares de estudantes, pais e mães, professores e demais cidadãos, na época do Fora Sarney só conseguíamos juntar poucas dezenas ou centenas de pessoas. No escândalo do Arruda (ex-Governador do DF), o “Mensalão do DEM”, os estudantes e jovens se envolveram bastante, foi muito importante, mas ainda assim insuficiente para modificar, subverter uma realidade. Os escândalos continuam (Pallocci, Ministérios dos Transportes e por aí vai) e continuamos em casa, alguns reclamando pelo twitter, outros mudando o canal do noticiário. Só acredito que isso mudará em alguns anos, por meio da Educação. A falta de educação é o principal meio de se espalhar a ignorância. E quem ignora, aceita os desmandos, se acomoda, não se importa com o social, apenas consigo. Temos que ver que ao modificar a realidade do todo, todos ganham. Rico, pobre, empresário, trabalhador… mas ainda não desenvolvemos um pensamento do todo, estamos ainda no pensamento egoísta.

8. No meio político existe muita corrupção, isso não te incomoda?
Incomoda! Muito!!! Mas não me alcança. É um teste de saúde, praticamente… mas como disse antes, se os honestos não ocuparem lugares na política, obrigatoriamente os desonestos ocuparão. Não há espaço vazio na Política. Quando tivermos mais pessoas “do bem” ocupando esses lugares e um sistema penal mais severo com a corrupção e mais efetivo no combate à impunidade, isso deixará de incomodar. Além disso, tenho certeza que não é só a corrupção que me incomoda. Eu tenho a oportunidade, o prazer e a felicidade de incomodar os corruptos.

9. Como garante que se entrar para a política não vai entrar nos “esquemas” existentes?
Minha garantia é minha palavra, minhas ações e minha história. Adoraria queimar a língua de tantos que falam que é impossível se manter limpo, fora dos “esquemas” e que se tem que “jogar o jogo”. Não serei o “justiceiro”, o vigilante ou guardião da Política, não tenho tamanha pretensão. Simplesmente farei minha parte da melhor forma possível e tentarei incentivar e abrir portas para que mais pessoas que compartilhem de sonhos como os meus ou similares, para que a luta por uma política do bem se multiplique, até o dia em que falar “política do bem” vire redundância. Ou seja, só provarei isso no dia em que eu for eleito e espero, de coração, chegar lá para provar isto.

10. O que você acha que falta hoje no Brasil?
Muita coisa. Muita coisa, mesmo. Mas vou me ater a alguns pontos: pensamento social, estratégia e Estadistas. Pensamento social, porque a corrupção é o genocídio cometido pelos “colarinhos brancos”. Não apenas mata pessoas, não apenas eleva números em estatísticas, mas destrói o futuro da nação como um todo. A falta de zelo com as questões sociais é a falta de zelo com o país. E hoje, os políticos têm, em geral, projetos de empoderamento e enriquecimento pessoal. Estratégia, para elevar o país no cenário internacional e para subverter valores antigos internamente. O Brasil poderia ser ainda mais importante e estratégico na agenda internacional, mas ainda é um “jogador” fraco. E subverter valores como riqueza (riqueza em ser culto, por exemplo, não apenas materialmente falando), da cultura do “jeitinho brasileiro”, entre outros, para que possamos elevar nossa sociedade a uma sociedade que visualize, cobre e aproveite o bem-estar social. Estadistas, para vislumbrar e trabalhar para isto. Não sei se essa “classe” está em extinção ou se todos já morreram, ao menos, no cenário político. De toda forma, há potenciais estadistas que se afastam cada vez mais da política ou mesmo abandonam o Brasil. A falta de líderes que pensem Brasil, que pensem o Estado e seu futuro é algo extremamente prejudicial para o hoje e o amanhã do país.

11. O que você faz hoje para mudar a realidade do nosso país?
Acho que o principal e o que mais tem me feito feliz é dar aulas aos estudantes de 2º e 3º anos do Ensino Médio, a “Oficina de ação social – (des)construindo o cidadão, sem ser chatão! É uma matéria optativa e a 1ª turma esteve praticamente cheia. Minha intenção foi poder levar a eles conhecimento político, social e mesmo de áreas de minha formação, como algumas teorias de Relações Internacionais, economia política, noções de Direito, pensamento crítico etc. Não tive isso quando era estudante do Ensino Médio e acho que tem sido bem legal, tanto pra eles quanto pra mim, que também aprendo bastante.

Também continuo com minha atuação político-partidária, com intuito de ter maior poder de atuação por meio de um possível futuro mandato, escrevendo em meu blog e tentando fazer o possível para difundir e incentivar ótimas ideias, como o Política do Bem!

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3 respostas para (RE)construindo a Política, sem ser chatão

  1. André Dutra disse:

    Amei! Nada mais, nada menos.
    Fiquei emocionado e honrado por estar aqui, como um personagem do que é bom na Política! Obrigado pelas palavras e pela super força que você me dá! Espero que essa ideia e essa corrente cresçam de uma forma que vc jamais imaginou! Seria merecido!

    Meus parabéns e continue na luta!! Beijo grande!

  2. Ludmila disse:

    Muito boa a matéria, parabéns aos dois!

  3. Léo Bijos disse:

    Por esses e outros motivos que acredito ainda que juntos podemos fazer alguma coisa para melhorar. O sentimento que move nossos corações pra querer mudar é o amor, amor pelas coisas? não! amor pela vida, pelas pessoas. É mais do que a hora de reagir. É o momento. Momento de dar oportunidade, de mostrar a nossa cara! Esse jovem que sempre escutamos, de 500 anos atrás, que seria o jovem do futuro somos nós. Obrigado por me inspirarem a ter vontade de continuar.

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